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Blog da PV, um genuíno produto da nova literatura lusófona!!
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Boa noite, amor

Boa noite, amor. Queira Deus que eu entre em casa de mansinho, pé ante pé, sapato na mão, leite e pão; Meus olhos baços te apreciam no aconchego dos lençóis que à tarde quararam ao vento no quintal onde na grama a poedeira colocou os ovos para a minha gemada da manhã (Obrigado às duas!).

Quanto estou mal...

Te prometo tomar banho agora mesmo, frio para o barulho do chuveiro não te despertar, para que o cheiro do sabonetinho de hotel de alta rotação não te chegue às narinas... para que a mistura de espermas já seca se dilua da minha peça íntima sob meus pés ainda quentes, embora fria a madrugada.

Como frio está o meu coração bipartido que te aloja com tanto carinho... ainda que outras mais vezes haja o que hoje houve.

Houve um tempo em que o ocorrido me parecia uma impossibilidade... mas ocorre e o tempo corre em alta velocidade, vida minha!

Corre água bem fininha da torneira, que bebico, gargarejo; Bochecho Listerine para espantar resquícios de álcool barato que te espantem ou desgostem.

Desgostem os deuses da minha conduta; Digam mesmo que sou um filho da puta... entretanto já não me peço explicações, não chegaria a tanto... nem mesmo me espanto.

Desencanto.

Tonto, envolto nas toalhas enxaguadas com Confort, sempre de leve e de mansinho, suavemente vou à copa, abro a geladeira e tomo água no gargalo. Prometo não cantar de galo.

Semi-nu, ando no apartamento semi-escuro a esmo; Serei eu mesmo?

Só eu mesmo!

Na cozinha eu ligo a cafeteira, aqueço o pão e não me esqueço de esquentar o leite (isto nunca devo me esquecer de fazer com prazer).

No pé da cama pego meu pijama cheiroso, me visto e bem lentamente me deito ao teu lado; Desgostoso, te admiro na meia luz do dia que já ameaça despontar, amoroso/temeroso, nem de leve sonho te desapontar; Aguardo o rádio-relógio te despertar devagar.

"Começou um novo dia, já volta quem ia, o tempo é de chegar..."

Minha amada, me acaricia!

- Bom dia!
 



 Escrito por Edu Funicelli às 15h45 [] [envie esta mensagem]



Noite Chilena - Leônidas Arruda

Se eu dormisse, essa noite,
sonharia os sonhos mais tristes,
essa noite.

Sonharia,
por exemplo,
que Pablo Neruda está morto
e que a poesia foi abolida
do caminho de Santiago
por ordem expressa do general.

E sonharia
que, em algum lugar,
uma flor encarnada em mulher
chora a morte de um homem justo
que todos chamavam Salvador.

E sonharia
que para o lado do poente
as baionetas brilham na noite
á procura de homens e mulheres que,
além do sangue,
carregam um sonho vermelho.

E sonharia
que da boca da noite
sai pólvora e fumaça,
e que ninguém mais passeia
de mãos dadas aos pés dos Andes.

E sonharia
que cápsulas de aço
fazem homens e mulheres
dormirem na noite,
na terrível noite das cordilheiras,
ainda indecisas,
em serem montanhas de gelo
ou de espanto congelado.

E sonharia
que tanques de guerra
saltam atônitos aos olhos do mundo,
enquanto uma grande ferida sangra
nas costa da América.

Porque em território chileno,
pacífico
é apenas o nome do oceano
escrito no beiral azul do mapa.

Goiânia, 23/09/73.



 Escrito por o editor às 09h27 [] [envie esta mensagem]



Ele, o Vento, e os Poodles
Edu Funicelli

Tem um vento que insiste em me tocar a janela do quarto, o danado; Eu já coloquei guarnição de borracha na veneziana, chiclete na junção da vidraça... tudo em vão, ele é persistente.

Agora mesmo eu estou um pouco agitado com a possibilidade dele se bandear da minha janela para a do apartamento 4, lá tem um recém-nascido de semanas ainda... e o pai da criança todos os dias desce para o lixeiro um saco lotado de latinhas de cerveja que fazem a festa dos cata-lixo, esse novo tipo popular das noites daqui do centro de São Paulo (diz-se que são desempregados que não querem vender muambas do Paraguai com medo dos "rapa", não sei se procede...).

Mas que diabos? Eu quero é falar do vento, esse intrujo que melhor faria em balouçar as minhas roupas de baixo que eu só lavo e dependuro à noite por considerar o ó do borogodó cuecas desfraldadas em varanda de prédio ao sol do meio dia (ademais, se como proprietário do prédio pego pesado com os inquilinos, eu que dê o exemplo). Aliás, eu não gostei nada quando o novo papai do prédio tirou aquele vaso de palmas do cantinho perto do medidor de luz e quadro de força no térreo e o colocou no patamar intermediário das escadarias, para melhor acomodar o carrinho do bebê...

Domingo passado eu tive que deixar um bilhete malcriado embaixo da porta do 6 por eles não terem lavado a área de circulação no sábado; Detesto porquice!

Mas peraí, que tem esse maldito vento que me impede dele falar? De onde virá? Que histórias e estórias terá ele a me esconder desse jeito?

Ele sopra que sopra a seu bel prazer, chegando mesmo a zunir no outono; Já sei a chateação que me espera na próxima mudança de estação... vai ser irritante (estou vendo que terei que entrafulhar uns "Diempax" para conseguir conciliar o sono).

Em abril do ano passado as janelas tremiam, tremiam... (Será que constrangidas com o que lhes soprava ele? Eu gostaria tanto de saber...)

Eu não sei por que azar foram demolir aquele armazém fronteiriço ao prédio (Tá certo que saiam de lá ratazanas enormes, pois estava desativado há anos! Mas e agora o que faço para me livrar desse vento impertinente que chegou mesmo a desalinhar a antena da tv a satélite justo no dia em que ia passar um filmão de far-west e caiu o sinal...)

O amaldiçoado, quando estou esturricado de calor e vou à janela me refrescar, aliviar... necas de aparecer (Mas se é para espalhar o farelo de pão que eu coloco no parapeito para as rolinhas, ah... aí ele aparece, não tem jeito)

Agora que eu perdi a visão do armazém em ruínas, lá longe, bem ao longe, pisca para mim toda noite uma lua oval da Esso e eu me pego perguntando de que valeu o Monteiro Lobato ter se desgastado com a história d"O petróleo é nosso", embora digam os economistas que a Petrobrás é um sucesso, coisa para ufanismo nacional (Só que eu gosto do Brasil é falando mal dele... mas ai de sapo de fora que ouse falar isto da minha terra... eu fico fulo e rasgo o vocabulário).

Mas e esse vento, hein? Que faço eu com ele? (Será que adianta eu comprar desses conjuntos perfilados Sassazaki e bloquear de vez a sua incômoda presença nas horas mais inadequadas? Estou pensando seriamente nisso)

Ah, mas se eu me render à Sassazaki o que faço com o binóculo que me permite apreciar amplamente o que ocorre na vizinhança... e sem que ninguém se aperceba? Poxa, aquele casal lá que vive brigando por bobagem bem que devia se dar conta de que a vida é curta e merece melhor aproveitamento; Bem faço eu de viver mais ou menos só, apenas com a companhia dos meus dois poodles (Pena que que eles urinem tanto no carpete!)



 Escrito por o editor às 09h51 [] [envie esta mensagem]



Na Esquina
Edu Funicelli

O caminhão de leite acaba de brecar na esquina; Tarde demais, por pouco não conseguiu evitar de atropelar o vira-latas magro, acho que com sarna... Que farei agora com os restos cheirando a geladeira?

Acaba de erguer as portas o bar da Lucinha; Curioso ver os caça-níqueis recobertos com sacos pretos de plástico reciclado ao lado do reluzente videokê... É, o Ivo Noal fez escola!

Na banca de jornais a musa do RRRRRRonaldinho faz graciosa - não graciosamente - propaganda dos efeitos do silicone nas curvas e fios de ouro no rosto que escancara seu hirto de glória... Logo mais o burro-sem-rabo da "AMBEV" - agora belga - levará a moça em papel para bom proveito.

Na farmácia do Rubinho a plaqueta de porta indica que o "Uprima" está em promoção, dez por cento mais barato que "Viagra"... É hoje!

É hoje a vida do jeito que pode ser... "sans dramme, sans dude"... A virtude com sabor hiper-inflacionado de São Paulo central.

A Dona Elza do bazar ia comprar o pãozinho de dez centavos; Está atarantada no meio do cruzamento por onde sexta-feira passada se arrastou tristonha a procissão do senhor morto; Ela não sabe que calçada pegar... Azar!

Eu aqui acendo um "made in Py", trago, baforando tusso...

- Rose, venha ver o que o motorista do "Leite Leco" fez com o "Fome Zero"!



 Escrito por o editor às 09h44 [] [envie esta mensagem]



Projeto de História Feliz
Dôra Limeira

Eu quero escrever uma história certinha, que tenha começo, meio e fim. Um drama alegre como se fosse um filme colorido, um leão da Metro anunciando o título. Que, desde o início e no decorrer do enredo, exista somente prazer. E que o final seja feliz, com um beijo cinematográfico e o letreirozinho da Metro dizendo “THE END”. Ou que o final seja como os finais das historinhas de TV. Todos casados, todos felizes, todos resolvidos.

Imagino que a minha história tenha um personagem rico, corado, forte, muito risonho de contentamento. Sua esposa é linda e dedicada. Os filhos irrequietos, saudáveis de corpos e mentes. Dois meninos alegres, sempre brincando, buliçosos. Ora brincando de vídeo game, ora brincando de futebol, chutando bola, às vezes quebrando uma vidraça. Nessa minha história, as duas crianças são felizes. A mãe interrompe as brincadeiras e chama-os, aflita, enxugando as mãos no avental. Está na hora do banho. É quase hora da escola.

O pai das crianças chega do trabalho perto da hora do almoço. Limpo, bem vestido, trazendo uma pasta com pertences do trabalho. Estaciona o carro na garagem, o carro luzidio, limpo, cheirando a desinfetante de automóvel. Na soleira da porta, as crianças o esperam com beijos. Ah, que história sadia. A família se reúne à mesa do almoço. Verduras, legumes, grãos, fibras. Uma jarra de suco de laranja com cubinhos de gelo se destaca na mesa posta. Vitaminas e sais minerais enfeitam e recheiam a alimentação dessa família. O almoço transcorre com normalidade, pontualidade e simplicidade.

Após o almoço, o pai das crianças se recolhe para uma sonequinha. As crianças se preparam para ir à escola, supervisionados pela mãe. Ela é uma mulher bonita. Mulher simples, portadora de conhecimentos gerais. Seu vestidinho solto, bem folgadinho e decotado lhe realça a beleza. Tem o rosto oval, semblante gótico, sorriso meio dentucinho. Tudo nela combina. O vestido, o cabelo chanel, as sandálias de tirinhas tipo franciscana, o sorriso dentuço.

Tudo pronto. O pai e as crianças entram no carro, após o beijinho de praxe. Até mais tarde. Não esqueça de trazer meu absorvente. Ela tinha menstruado, graças a Deus. O carro se afasta, ganha distância. O pai vai para o trabalho, os meninos vão para a escola. O carro pára no portão da escola, os meninos descem do carro. Tchau, pai. Tchau, meninos. O trajeto até o trabalho é movimentado nessa hora de rush. Muitos semáforos. Muitos pivetes vendendo coisas, coisinhas. Ou simplesmente pedindo. Moço, um trocadinho.

Eu teimo em manter minha história alegre, afasto maus pensamentos. Tomara que tudo dê certo. Que nada de mal aconteça. Que um anjo vele as crianças. Que Deus proteja os pais. Na minha história quero que o bem reine contra o mal. Que tudo seja normal. Que tudo transcorra como o por do sol, simples, pontual, tranqüilo. Que tudo cumpra um destino, uma sina bendita, sem turbulências. Nada de doenças, nada de dívidas, nada de mortes. Na minha história, não há guerras nem tráfico de drogas. Deus que livre minhas personagens de bala perdida. Deus que as livre de doenças malignas.

Prossigo digitando um enredo, uma história, um drama. Tento me manter fiel ao projeto da história feliz. Mas uma dor de cabeça e uma tontura me acometem e mudam os destinos dos meus personagens. O pai não mais voltou para casa, foi vítima de seqüestro com morte. As crianças sofreram um acidente na escola, e estão num hospital, em estado grave. A mãe, sabedora de tudo, perdeu a cor do vestido, o semblante gótico se enrijeceu, o sorriso dentuço deu lugar aos lábios contraídos e, de repente, envelhecidos.

Largo o teclado. Deito-me, tento relaxar. Quem sabe depois retomo o projeto da história feliz. Quem sabe o enredo possa se reverter. Rezo pelos meus personagens. Que tudo tenha sido um sonho, resultado de minha dor de cabeça forte. Que o pai volte do trabalho são e salvo, tomara que não se tenha esquecido do absorvente. Que os meninos retornem cheios de vida e de tarefas escolares para cumprir. Que a mãe a essa altura esteja esperando os seus, com o sorriso dentucinho de sempre, um cheiro de alfazema pós banho.

Volto ao teclado e retomo meu projeto de história feliz. Nessa tentativa de retomada do projeto, o pai chega em casa com os meninos. Todos se abraçam. Os pais trocam um beijo na boca prolongado e eu digito minha última expressão no teclado, depois de dar dois enters:

THE END

 Escrito por o editor às 09h39 [] [envie esta mensagem]



Nós
Pedro Chaltein

som-
os
som
soma-
se
sons

o se
e o si
aussi

on si
na ponta
ata-me

once
upon
a time.



 Escrito por o editor às 09h36 [] [envie esta mensagem]



Lema do Trovador - Jorge Pasin

Tudo terá sido válido
Se antes de acabar o dia
Brotar da página nua
Um verso de poesia.


 Escrito por o editor às 09h34 [] [envie esta mensagem]



Corre!
Ney Alexandre

Todas as manhãs eu te espero ansiosamente. Abro portas e janelas. Corre! A mulher e a menina em mim anseiam por tua chegada. Sei que estás por vir; meu coração dispara, é meu carinho querendo explodir e invadir o mundo. É uma espera alegre, ponho a música que tu gostas e te imagino a dançar para mim... Rodopio pela sala, sozinha, de braços abertos, rio de mim mesma. Tu fazes isso comigo. Corre! Já exorcizei todas as minhas neuras e exilei meus fantasmas; sou tua, como tu haverás de ser meu. Quando estamos juntos, transformamos nossos momentos em magia e perfeição, os eternizamos a cada dia. Vem! Ouço-te enfim e corro para a janela. Vejo-te no início da rua. Corre, Rex, vem brincar comigo, cãozinho! Sai do lado dessa Veraneio, querido. Rex, olha a Veraneio! Rex, cuidado! Ela vai te...

As manhãs dela nunca mais foram tão excitantes. Seu Bené, o velho dono do Rex, que todas as manhãs o soltava lá na casa 205 para que o vira-lata a encontrasse, acabou mudando-se para longe, para nunca mais lembrar do companheiro. A moça já não brinca, não canta e nem dança. Agora ela levanta às pressas, toma café correndo e sai em disparada para o trabalho. Sempre atrasada, dirige sua Veraneio feito uma louca pelas ruas de São Luís. Outro dia atropelou um cachorro e, de tão obcecada com o tempo, nem percebeu o moleque chorando desesperadamente cobre o corpo do amigo estendido. O cão dava os últimos grunhidos; o menino, as primeiras lágrimas. E ela corria, corria atrás do ponteiro do relógio, sem alcançá-lo jamais.



 Escrito por o editor às 09h31 [] [envie esta mensagem]



Gralhas Domingueiras - José Maria Alves Nunes

Hoje é domingo e o céu está claro; um fundo azul celeste mais distante destaca nuvens alvas. Tão alvas quanto as anáguas das velhas senhoras nordestinas.

Eu já estive lá fora mais cedo, fiz a inspeção que sempre faço nos finais de semana, assim que fui acordado madrugadinha por umas gralhas mal educadas que faziam muito barulho próximo à janela do meu quarto, enquanto comiam um resto de mamão ainda no pé, que ontem já servira de banquete a vários pássaros que almoçaram em meu quintal.

Gralha, pra mim, é um cancão sertanejo metido a besta. Certamente imigrante do nordeste cá pras brandas do cerrado, que ao chegar por aqui parece ter renegado suas origens. Pra você ter uma idéia, além de ter ficado graúdo, bem nutrido pelas frutas desta terra, mudou a letra e o tom do cantar; agora é mais grave, estridente, e não repete seu nome “cancão, cancão”. É um som esganiçado, sem graça, horrível.

Não estou querendo desfazer da beleza da penugem preto azulada que cobrem sua cabeça e asas, e nem do branco de seu abdome, muito menos de sua imponência e altivez, mas eu sou muito mais o cancão magro do sertão cantando e voando de galho em galho, acuando cobra. Apesar daquele ser lombriguento, a ponto de não servir para se comer assado com beiju de tapioca fresca - o que não quer dizer nada.

Fosse em outros tempos, o meu tempo de menino no nordeste, lançava mão de meu bodoque feito de pau pereira, ou das arapucas, e essas gralhas gordas iam ver uma coisa. Deu-me até água na boca de pensar no espeto fumegando sobre as brasas.

Durante a inspeção que fiz, fiquei de queixo-caído quando dei por conta do quanto as rolinhas daqui são diferentes das de lá do sertão. O que vocês me dizem de uma rolinha que, por preguiça de trabalhar, se põe a botar ovos num ninho velho, todo cagado nas beiras, que já serviu de berço, há bem pouco tempo a uns remelentos “fogo-pagozinhos”, hem? Pois é. É isso mesmo! Tem uma chocando no ninho antigo que fizeram num galho do pé de “bouganville” lá do fundo do quintal. Acredite se quiser, eu também não quis acreditar quando vi a cena.

Agora a joaninha, não! Dessa não falo mal. A joaninha é diferente. João de barro sempre faz casa nova. Dia desses ao sair para o trabalho eu o vi pegando matéria prima no meu quintal e construindo no pé de sucupira preta da casa vizinha. Hoje não a vi. Não trabalha aos domingos nem nos dias santos de guarda. Deve estar apenas inspecionando a obra. Eu vi foi duas garrinchas com inseto nos bicos levando pros filhotes bicudos que estão famintos no ninho que fizeram lá no terraço.

Pois é, a conversa está boa, mas já é bem meio dia, “né Maria José?” Tenho que ir até a cozinha.



 Escrito por o editor às 18h03 [] [envie esta mensagem]



Virtudes da Gula - Dôra Limeira

Quero tudo. Quero isso, aquilo. Quero uma rosa, um bicho. Ah, como desejo um homem. Quem sabe um menino, um garoto.

Os meus desejos são tantos. Preciso de uma casa, preciso de tudo, não sei o que mais quero. Meu ser volúvel quer um animal felino. Pode ser um cachorro, um tigre, ou um leão. Mas tem que ser felino. Um gato não serve. Tenho dois na minha casa.

Sonhei com tudo, sonhei com nada. Eu desejo ter um par de sapatos novos, uma valise ou bolsa a tiracolo, tudo novo. Ontem vi um par de brincos de argolas numa loja, e desde então sonho com esses brincos.

Meus dentes estão feios, cariados. Machucam e magoam minha boca. Quero dentes novos, confortáveis. Meu sorriso precisa disso. Com os dentes assim cariados, tudo na cabeça me dói e o mundo é uma cratera funda e escura, para mim.

Estou com fome. Prouvera ter uma mamadeira agora, e que eu pudesse sugar todo o leite do mundo. E que eu pudesse me sugar, inteira.

Neste exato momento, daria tudo para dançar. Não importa em que ritmo ou com quem. Daria tudo para sair pelas ruas com uma saia muito rodada, blusa decotada, sambando, valsando ou cirandeando. Eu me atiraria nos braços do primeiro que acertasse os passos com meus passos.

Eu nada tenho. Não tenho uma bolsa nova, nem valise, nem homem, nem animal felino algum. Não tenho uma rosa, nem um menino. Faltam-me dentes de ouro com que sorrir. Também não tenho um par de sapatos novos nem um par de brincos de argola. E a mamadeira se perdeu nos tempos da minha infância.

Assim despojada, encaro-me de frente. Não tenho mágoa de mim. Olho-me no espelho grande da sala e vejo-me assim, sem nada. Mas não tenho pudor nem medo de me espiar. Dispo-me de minhas velhas vestes. Vislumbro meu corpo sem mácula. Percebo minhas nuances, minhas curvas abertas e sinuosas. Aperto-me, acaricio-me o corpo e me amo.

Ah, que vontade de deitar. Converso comigo em sussurros. De repente, começo a gemer baixinho e me deito. Toco-me em minhas partes secretas, me confidencio segredos. E murmuro te amo. Meus cabelos loiros e longos se empapam de suor. Meus sussurros viram gemidos.

Quebrei meu copo de cerveja. As gotas do meu orgasmo se perderam entre os estilhaços do copo de vidro.

Ao longe escuto um batuque. Esqueço tudo. Esqueço meus dentes. Esqueço os brincos, os sapatos, a bolsa, o homem, o menino, o bicho. Mas guardo os espasmos do meu orgasmo, misturados ao vidro do copo quebrado. Há um batuque no ar. Ah, conheço esses toques. Tum tum tum. Ciranda rosa, ciranda azul. A ciranda do meu bairro abre a roda e a vida. Escancara a dor de todo mundo para todo mundo ver.

Esqueci o animal felino. Só quero a ciranda pra brincar. Ciranda de côco, de mar e lago. Minha saia larga e rodada gira no ritmo dos tambores. Tum tum tum. Olha a ciranda, olha o espinho. Olha a dor. E a roda se amplia, abre mais. Abre a flor, abre a janela. Esqueço tudo e meu corpo rodopia de mãos dadas com outras mãos, no passo marcado da ciranda em carne viva.

Um garoto agarra meus dedos e sussurra no meu ouvido. Dá-me tua boca, tenho sede. Olha o sol chegando. A noite terminou. Um girassol desponta na janela. Este girassol não é amarelo, é azul. Esqueci de tudo. Esqueci as cáries, os brincos que vi na loja e a mamadeira da minha infância. Agora quero ciranda. O sol já vai alto. E eu insaciável, engolindo o batuque, comendo sons, mexendo o corpo na cadência. O sol chegando, roda ciranda. O garoto perto de mim se aconchega e sussurra mais atrevido. Abre a roda. Abre as mãos. Abre as pernas. Abre as pernas. E o garoto mergulhou dentro de mim. Tum tum tum.



 Escrito por o editor às 18h02 [] [envie esta mensagem]



O Trem da Minha Infância
Jorge Gonçalves Junior

Lá vai a Maria Fumaça,
Jaçanã - Tucuruvi.
Subida imensa...
Tchec-chec-tcheec...cheec.
Tcha-tcha-tcha-tcha...tchaaa.
Garbosa e cheia de graça
Beleza assim, nunca mais vi.
Só a lembrança me recompensa.

Lá vai a Maria Fumaça,
Tucuruvi - Parada Inglesa,
Refresco da descida...
Tche-tche-tche-tche...tcheeee
Tche-tche-tche-tche…tcheeeeee.
Orgulhosa sempre que passa,
Na memória, a mesma leveza.
A saudade da sua partida.



 Escrito por o editor às 10h02 [] [envie esta mensagem]



O Ciclista
Jorge Pasin

O ciclista sua e grita
o monte, vencido
chora esparramado.



 Escrito por o editor às 09h59 [] [envie esta mensagem]



Não-Convidado - Ney Alexandre

A outra face não darei. Cansam-me os olhares, a multidão, encontros e despedidas. Palavras absurdas. Os olhos, o espelho, o nada. Uma canção consola e abandona outra vez. Os ponteiros se arrastam. A porta não abre. A luz não se acende. O coração cala. O copo enche. A esperança? Cordeiro de Deus. A televisão grita, o jornal espatifado no chão. A cama gigantesca, o cobertor ainda destila, lágrimas no travesseiro. Um pulo, uma tentativa. Cozinha engordurada. Pizza gelada. A chave do carro. A brisa da madrugada nos cabelos. Tocos de cigarro. 70, 80, 90 por hora. O mar, Odoiá! Vozes persistentes. Sufoco. Uma menina passa. 50 é caro, dou 30. Areia, sussurros, amor de mentira. Mentira... Mentira... Ainda te amo.



 Escrito por o editor às 09h54 [] [envie esta mensagem]



Picadeiro - Jorge Gonçalves Junior

Ontem fui ao Circo...
Com que leveza planava o Trapezista,
Das mãos confiantes da parceira,
Saltava ativamente por sobre a beira,
Saltos quádruplos sob os olhares,
Da platéia entusiasmada e estarrecida.
Voando bem mais leve que o próprio ar,
(--as pipocas, mais caídas que comidas--).
(--tanto espanto, não era pra menos--).
Do ar que respirava ofegante...
O menino que já pensava em ser Artista.


 Escrito por o editor às 09h52 [] [envie esta mensagem]



Senhora - Rosiris Inglese

Numa tarde qualquer
- por acaso -
sábado de carnaval
ao som de Tom Jobim

lembro da vida que passa
sorrateira a safada
devarinho ela corre
mais rápida que a luz.

Entre relatórios, projetos e papéis
paro de repente
me olho no espelho
quero ver as marcas do tempo
rugas, não vejo
flacidez, talvez um pouco
meio século se passou.

Me sinto inteira
embora, fique atenta
quando desavisados
me chamam de " senhora"
dizem que é por respeito
eu acho um desrespeito
pois me avisam
- sem eu ter pedido -
da hora que passa...



 Escrito por o editor às 15h51 [] [envie esta mensagem]



Poema Fugaz de um Passante - Alexandre Bollmann

Os dias, bons ou maus
Persistem em gotejar do teto
Que paira sobre todos.

Gotas refrescantes no verão
Pingos gélidos no inverno
Sempre abandonados sobre nós
Um após o outro.

E eu me esquivando
Entre poças e baldes
Forjando a fuga
Mas quase aguardando o evento
Do instante em que a goteira alcança
E ela sempre alcança)
O centro de minha cabeça.

Seu impacto é rocha
Faz uma fenda no que é findo
Extravasa idéias, pensamentos
E as lembranças

Do que um dia foi
minha imagem no espelho
E do que sempre será
(pelo menos assim me parece)
a tua imagem no retrato.



 Escrito por o editor às 11h33 [] [envie esta mensagem]



VIII Concurso Literário da Academia Caxiense de Letras

Aberto a participantes residentes no Brasil e em países de língua portuguesa. Serão aceitos até três trabalhos inéditos em cada uma das três categorias - contos, crônicas e poesias. O tema é livre. Os textos poderão ser inscritos de 1º de agosto até 11 de outubro.

 

O júri de cada categoria será constituído por três membros da Academia Caxiense de Letras. Os trabalhos inscritos não serão devolvidos e a Academia Caxiense de Letras reserva-se o direito de publicar os textos vencedores em obra cooperativada. Serão selecionados os três primeiros colocados em cada categoria, que receberão troféus, medalhas e diplomas. A entrega dos prêmios acontecerá no Jantar de Final de Ano promovido pela Academia Caxiense de Letras.

 

Maiores informações podem ser obtidas com Marilene Pieruccini (emanuele@brturbo.com), 1ª secretária, cadeira nº 15 da Academia Caxiense de Letras.



 Escrito por o editor às 11h18 [] [envie esta mensagem]



Para Onde Vão os Trilhos - Edu Funicelli

Decerto que eu já me apercebi das tolices cometidas
Nem de todas me arrependi, claro!
Não lamento a não correção de curso em certos momentos

Paguei barato pela imprudência de viver em plenitude
Chorei no mínimo um Tietê não poluído
... uma Pampulha pré-JK

Calei como quem não consente em vão
E continuei meu caminhar

Sem saber aonde ir, prossegui

Me vi só e certo
Decerto alguém se riu da minha estupidez
... mas dei de ombros

Só poderia mesmo chegar onde cheguei
... não adiantava mais eventual lamentação

As estradas cortaram meu caminho impreciso
e cheguei ao terceiro luar em estado de calma

O linho que me recobriu o sono solto da juventude
Hoje repousa a céu aberto na areia da aceitação

Embora nada previsto, tudo se concretizou
... de uma ou outra maneira

E aqui o que me sobra é a bala de anis no bolso
... e uma criança perdida numa curva de dia de sol

Sol que aquece invadindo terrenos infeteis
onde a imaginação contrasta com meu imaginário

Não afeito a respostas prontas, sorrio
Quase em soluço, sorrio sempre e sempre

Escondo o gargalhar tolhido pela gravidade do tempo
... para que me haja alguma credibilidade
Uma ou outra facilidade

Eu não devo negacear evidencias, ainda que desfocadas
Muito menos fazer o papel a todos permitido

Quero noites que me espantem os monstros
Onde eu me agarre à árvore do enforcado

À mão do que der e vier, preciso saber urgentemente
Para onde vão os trilhos.



 Escrito por o editor às 11h06 [] [envie esta mensagem]



O Poeta e seus Versos - Rosiris Inglese

Perdido em seus versos,
lá vai o poeta
todo prosa...


 Escrito por o editor às 15h34 [] [envie esta mensagem]



O Anúncio - José Maria Alves Nunes

Passando por grandes dificuldades financeiras, o Senhor João Salgado não tinha outra saída a não ser vender seu último bem para suprir as suas necessidades básicas de sobrevivência. Olhou contrafeito para o escravo Inácio e resolveu anunciar sua venda no jornal:

“Vende-se um creoulo de 22 annos, sem vicio e muito fiel: bom e aceado cozinheiro, copeiro, bolieiro. Faz todo o serviço de arranjo de casa com presteza, e é o melhor trabalhador de raça que se pode desejar; humilde, obediente e bonita figura. Para tratar na ladeira de São Francisco n. 454”.*

O excelente escravo do anúncio foi comprado por uma viúva com cinco herdeiros ambiciosos, dona de muitos bens e cheia de particularidades a esconder.

Lendo o anúncio Dona Helena, viúva há mais de 2 anos, com cinco filhos já crescidos, não teve dúvidas; foi conferir se o crioulo era tudo aquilo que fora anunciado. Ao chegar no local, constatando serem verídicas todas as informações, esforçou-se para não demonstrar o interesse que o negro lhe despertara. Astuta, logo percebeu pelo estado de conservação da casa onde morava o Senhor João Salgado, autor do anúncio, que aquele era o último recurso que lhe restara; regateou o preço até que ele caísse à metade. Consciente do grande negócio que acabara de fazer saiu satisfeita arrastando o negro Inácio.

A distância a percorrer era considerável e, não podendo esperar, ao longo do trajeto, Helena foi passando as regras adotadas em sua casa e as ordens para Inácio:

- Você, dizia ela, ficará à minha disposição para me servir durante as vinte e quatro horas do dia. Há muito estou querendo substituir Josefina, minha velha camareira, dessa incumbência; aquela está velha e cansada, não atende mais às minhas necessidades.

E Inácio lhe respondia: Sim senhora. Sim senhora.

Passados dois anos da compra de Inácio, os cinco filhos de Helena, todos muito ambiciosos, desconfiados do tratamento que a mãe dispensava ao escravo Inácio, resolveram dar fim a um suposto romance entre os dois. Convenceram a mãe de que a mesma precisava descansar algum tempo em uma das fazendas e alegando ser indispensável a presença de Inácio na cidade para manter a casa em ordem, convenceram-na de que ele deveria permanecer ali. Tudo pronto para a viagem Helena partiu numa manhã de sol e Inácio, com olhar triste, despediu-se de sua Senhora.

Durante a longa ausência de Helena, seus filhos, avarentos, procederam a venda do escravo a um Senhor de Engenho de Minas Gerais. Ao regressar da fazenda para a Cidade de São Paulo a nobre senhora foi informada pelo filho mais velho que, acometido de uma doença grave, Inácio havia morrido e o corpo tinha sido entregue ao serviço social.

Desde aquele dia, Helena definhara até a sua morte que ocorreu numa tarde de abril, dois anos após a venda do crioulo Inácio. Logo após as cerimônias do sepultamento os cinco herdeiros foram discutir a partilha dos bens e, como não chegaram a um acordo, levaram a causa para a justiça que ainda hoje não decidiu sobre o caso.


Nota: * = Anúncio publicado no Jornal A Província de São Paulo, antigo nome do atual O Estado de São Paulo, do dia 21 de dezembro de 1.878.



 Escrito por o editor às 07h41 [] [envie esta mensagem]



Tudo é Ponto de Vista - Eric Carrazzoni

Ela é devassa, já gritaram muitos ao longo dos séculos. Moça direita não devia estar em contato com ela nem adentrar nos seus meandros. É verdade que nem todos, sempre, dividiram essa opinião. Amiga dos sonhos lúdicos e também de teses fundamentadas que encheram o espírito dos homens do desejo de revolução – Rosseau que o diga! Tem estilos e perfis variados, mas não se sabe ao certo qual é o melhor ou o pior; ora é técnica, científica, histórica; ora é ficcional, lasciva, experimental. Verdadeira camaleoa.

A religião nunca lhe viu com indiferença: chegou mesmo a queimar-lhe as entranhas nas inquisitórias fogueiras medievais. Quanto medo causava! Mas se foi pagã também fez as vezes da expressão legítima dos santos e, dizem, dos próprios deuses. Excessivamente democrática, portanto. Mudou com a humanidade, que lhe viu de muitas maneiras e lhe atribuiu inúmeras definições. Numa época recente na linha da História, falavam mesmo que era francesa e todo o resto, uma farsa. É claro que outras vozes logo mostraram ser esse imenso desatino; a inglesa talvez tenha sido a mais queixosa diante de semelhante injustiça.


Se pervertida, por que instrutiva? Se instrutiva, por que pervertida? Parece ter sido demorado o consenso de que ela não era nem boa nem má, tudo dependendo do uso que dela se faça. Tal como Aristóteles via a retórica. Muitos quiseram – e talvez por isso tenha sido sempre tão sofrida – de se valer de homens para fazer sucesso. “O que seria dela sem Gutemberg?”, perguntam até agora. Ele, um técnico que teve sua fama ampliada por hábeis artesãos da palavra (por que não lembrar Dostoiévski, o epilético?), a deixou famosa nos quatro cantos do mundo, é fato, mas nem por isso pode-se tirar os méritos dessa senhora voluntariosa: a César o que é de César.

O que é mais grave, e não se deve deixar de registrar, é o crescente e tolo prenúncio de sua morte. O som e as imagens de fato são seus maiores algozes, quase não se discute. No entanto, vamos defendê-la disso e de todos os outros absurdos que ultimamente se lhe atribuem, como o de que tem se tornado fútil e superficial. Ainda mais quando se esquecem que ela é a alma do audiovisual.

Ó rainha luxuriante, deusa e demônio de mil tentáculos que nos faz submergir para as trevas e emergir para a luz da vida, Nossa Senhora Desatadora dos Nós, tu não mudaste no íntimo, apenas te adaptaste aos tempos. Literatura. Mulher. Querida ou maldita. Tudo é ponto de vista.



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